quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DR. EDMUNDO ROCHA


Foi-me solicitado que desse testemunho da minha vivência no BNU Macau.
Não sei quem foi a pessoa que se lembrou da minha passagem por Macau, mas aqui lhe agradeço o pedido, que atendo com muito gosto, porque penso que efectivamente a história das Instituições, tal como a dos países, se faz com o somatório de testemunhos de quem participou ou viveu os acontecimentos.
Neste caso trata-se de memórias que ainda interessam a muita gente, como se comprova pelo interesse e o entusiasmo da participação que o referido blog tem e da saudade que o Banco Nacional Ultramarino desperta em todos aqueles que o serviram e ajudaram a cumprir a sua Missão.
Também eu tenho saudades e confesso que nunca pensei ver o Banco desaparecer.
Fui para Macau em 1980 e de lá regressei em 1988.
Macau era nessa época um território de 15 km2 e 500 mil habitantes, onde as comunidades chinesa, luso-chinesa e portuguesa conviviam em ambiente fraterno. A autoridade portuguesa era simbólica e pouco mais fazia do que gerir os interesses da pouca presença portuguesa, com base num orçamento alimentado quase que exclusivamente por receitas do jogo. Havia um hospital e um liceu para os portugueses e pouco mais. A comunidade chinesa vivia um curioso sistema de autogestão orientado pelos seus líderes (Ho Hin, Maman Kei, Stanley Ho e outros) que detinham as grandes fortunas e os grandes negócios e, em contrapartida, davam satisfação às necessidades básicas da população, designadamente em matéria de saúde e ensino.
O BNU tinha uma actividade reduzida, comparativamente à dos bancos chineses e a pataca não exercia qualquer influência na economia do território, onde circulava principalmente o renminb e o dólar de Hong Kong.
Neste cenário foi curioso assistir ao aparecimento do chamado Instituto Emissor de Macau, primeiro passo para a criação do Banco Emissor de Macau, que retiraria essa e outras funções ao BNU, que ficaria limitado à sua pequena quota de acção comercial. Tratava-se de um projecto nascido em Lisboa, do desejo do Governo de Macau, mas que não podia agradar nem ao BNU nem a Pequim. Durante os anos em que tive a responsabilidade da direcção do Banco em Macau, o meu papel, bem como o dos meus colegas de direcção e de outros colaboradores próximos, foi o de resistir como pudemos a esse projecto, com o apoio da Administração em Lisboa, enquanto a ela presidiu o Dr. Mário Adegas. Tivemos também a compreensão tácita da influência chinesa.
Refira-se que felizmente o projecto, certamente por falta de mérito, não se concretizou e que o BNU, por decisão da Republica Popular da China, manteve todas as suas funções até 2049, quando terminará o período de 50 anos estabelecido por Pequim para a actual autonomia (à semelhança do que aconteceu em relação a Hong Kong).
Portugal baixou a sua bandeira em 19 de Dezembro de l999 mas o BNU continua em Macau sem ter perdido nenhuma das suas atribuições.
Lisboa, 6 de Agosto de 2011
Edmundo Rocha

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