segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Onze mil ou doze mil virgens

O "BOLETIM DE CONTACTO", da Associação dos Antigos Empregados do BNU, noticia, entre outras, a visita a Alcácer do Sal que incluiu a visita à Capela das "Doze Mil virgens". Há dias também fui fazer essa vista com um grupo que estuda história de arte com o professor José Manuel Ferrão. O professor disse que eram onze as virgens. E contou que passaram a onze mil porque na pedra tumular que foi encontra tinha referência a onze M. V., ou seja, onze (M)ártires (V)irgens. Mas o que se costumava escrever era Virgem e Mártir e não ao contrário. Então alguém interpretou o M. como mil e passaram a ser onze mil virgens.
Pronto, se calhar a D. Olga, (que fez a notícia no "Contacto") enganou-se e não são doze mil mas só onze mil, ou seja onze. É caso para dizer, mais mil menos mil, ou seja, mais uma menos uma...
Há também quem diga que nem onze são e é só uma que se chamava Undecimilia (=onze mil).
Podemos imaginar as histórias que se inventaram do martirio das onze mil raparigas, todas em fila para serem mortas ou juntas numa casa, ou... sei lá. E o carrasco ou carrascos, quanto tempo levaram? Não se cansaram? E a cidade donde provinham, ainda ficou com raparigas? Pouparam as mais bonitas? Bom, é melhor passar à frente, senão isto ainda descamba...


Seja como fôr, vale a pena visitar(aconselho visita guiada com entendido na arte portuguesa) este extraordinário monumento. Não imaginamos as preciosidades artísticas que possuimos em Portugal!

A lenda das Onze Mil Virgens foi muito popular até ao início da Idade Moderna. Em sua homenagem, Cristóvão Colombo, em novembro de 1493, deu a um grupo de ilhas das Antilhas o nome de "Santa Úrsula e as Onze Mil Virgens". São hoje as Ilhas Virgens, divididas entre um território estadunidense e uma colónia britânica.
O navegador português José Álvares Fagundes também chamou "Onze Mil Virgens" a um grupo de ilhas perto da Terra Nova, mas o rei chamou-lhe Ilhas Verdes e os franceses, que as reivindicaram depois de 1535, deram-lhe o nome de ilhas Saint Pierre e Miquelon, que têm ainda hoje. Continuaram, porém, a aparecer com o nome original em mapas do século XVI.



Já agora apresento umas fotos interessantes que tirei em Alcácer. Duas representam uma casa com um aviso interessante:
PROIBIDO
UTILIZAR
O TELHADO
DESTE PRÉDIO
COMO PASSAGEM


O telhado como passagem? será que os pombos de Alcácer sabem ler?
Bom, os medievais inventavam logo, sabe-se lá, a história de um gigante que assolava a povoação e que passava por cima dos telhados, mas que ficava completamente tolhido com proibições escritas nas paredes das casas por onde passava...

Outra foto que tirei na Igreja da Misericórdia de Alcácer: Um.. como é que lhe hei-de chamar?.. um nobre bem vestido, mostrando que pode servir de sustentáculo a um púlpito.

S. LOURENÇO
A história das onze mil virgens, faz-me lembrar outra, que me deixou muito desiludido. É a história de S. Lourenço. Diz o martirológio (relato das vidas dos mártires) que S. Lourenço, desgradou ao Imperador Romano, que o mandou grelhar e que o Santo enfrentou o suplício mortal com coragem de tal forma que depois de estar já bem queimado, ainda teve força para dizer aos carrascos para o virarem porque daquele lado já estava.
Eu considerava este santo o padroeiro dos veraneantes que, na praia, se vão virando até ficarem bem tostados pelo sol.

Mas não é que tudo isto afinal é inventado?


No museu de S. Roque (Vale a pena visitar Igreja e Museu, no Largo da Trindade em Lisboa), que também vem referido no último "Contacto", está lá a representação de S. Lourenço com a grelha na mão. E sempre tem sido representado tendo em conta esta forma de martírio. Em Roma, visitei umas catacumbas de S. Lourenço, que têm, à entrada, uma imagem do santo com a grelha na mão.
Então, a lenda e toda a história inventada posteriormente, vem do simples equívoco de ser referido em documento que o S. Lourenço "passus est", ou seja "foi morto". Mas, com o decurso do tempo, o "p" desapareceu ou tornou-se imperceptível e ficou "assus est", ou seja "foi assado".
Eu nem acredito que se tenha inventado toda esta história só porque desapareceu uma letra num documento...
Lá se vai o meu padroeiro dos banhos de sol...

1 comentário:

  1. Gostei e aprendi algo neste tema. Só que esta hitória de desperdiçar tanta virgem é que não me sai da cabeça.
    Manuel Araujo

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