FRANCISCO
DE OLIVEIRA CHAMIÇO, nasceu no Porto em 1820.
Filho
de Fortunato de Oliveira Chamiço e de Cândida Martins Pacheco.
Neto
paterno de Brás de Oliveira Chamiço, capitão-de-mar-e-guerra, de ascendência
alemã e Ana Luisa Chamiço e materno de António José Soares Pacheco e Custódia Claudina
Pacheco, de ascendência britânica.
Aos
10 anos vai para Inglaterra estudar, aproveitando o facto de ter ali laços
familiares.
Em
1940 regressou ao Porto e integrou-se na firma paterna “Chamisso &
Companhia”.
Casou
com Claudina Freitas Guimarães, irmã de Ana Freitas Guimarães que casou com
Fortunato de Oliveira Chamiço Júnior, irmão do Francisco.
O
casal Fortunato Chamiço Júnior e Ana Freitas Guimarães teve uma filha; Amélia,
que casou com Frederico Biester, irmão de Rosa Biester Mendes Leal, esposa de
José da Silva Mendes Leal, ministro da Marinha e do Ultramar.
Francisco
Chamiço faleceu em Lisboa no dia 21 de Março de 1888, com 68 anos.
Para
compreendermos melhor o percurso de vida deste “negociante” como é intitulado
na escritura de compra do prédio da Rua Augusta, temos de ter em conta
determinados factos da história de Portugal e de toda a envolvente da vida do
fundador do BNU
Sabemos
que recusou o cargo de Ministro da Fazenda e, pelo que sabemos dos anos que
esteve como deputado, tinha formação de ciência económico-financeira, pois as
suas intervenções de 14-02-1855 a 7.06.1862 foram as seguintes:
-
Cunhagem
de moeda – 3 intervenções.
-Empréstimo
público para construção de estradas
-
Orçamento
do estado – 9 intervenções
-
Acordo
com credores estrangeiros e empréstimo para obras públicas – 8 intervenções
-Livre
importação de cereais – 3 intervenções;
-
Codificação
do crédito predial
-Empréstimo
para obras públicas – 2 intervenções
-
Reforma
das pautas – 2 intervenções
-Troca
de moedas
 |
| Assinatura de F. Chamiço |
VIDA FAMILIAR
Já
vimos que esteve ligado por laços de família ao ministro José da Silva Mendes
Leal. Este escritor, jornalista, político português, foi grão-mestre da
maçonaria, relacionado com as personalidades mais influentes do nosso país. Foi
várias vezes eleito deputado. Em 21.02.1862, sendo deputado pelo Partido
Histórico, foi nomeado Ministro da Marinha e do Ultramar, cargo que manteria
até 12 de Dezembro de 1864.
Francisco
Chamiço, igualmente maçónico e deputado pelo partido Histórico, conseguiu que, em
poucos dias, o ministro seu familiar, correligionário político e maçónico, lhe
aprovasse a fundação do Banco Nacional Ultramarino, com o encargo de gerir a
política financeira e monetária das colónias e com regalias que provocaram
críticas generalizadas da imprensa e de muitos setores de opinião, sobretudo
por ter sido criado por proposta do governo, sem ter havido qualquer concurso
público.
O Ministro
da Marinha e Ultramar expõe pessoalmente o projeto do Banco à Câmara de
Deputados do Reino em 7 de Abril de 1864 e logo em 10 de Maio seguinte é
aprovado o decreto que autoriza o novo banco.
Seis dias
depois, 16 de Maio de 1864, o rei, D, Luís, assina a Carta de Lei que ratifica
o decreto, nascendo assim, oficialmente, o Banco Nacional Ultramarino.
Os
privilégios importantes que beneficiaria por um período de 15 anos, renováveis,
eram:
Não
é sem razão que os primeiros acionistas do BNU fazem a seguinte declaração:
“em atenção aos serviços prestados à fundação do
BNU, à obtenção dos privilégios, vantagens e isenções alcançadas por Francisco
de Oliveira Chamiço, será ele considerado fundador deste estabelecimento e
nessa qualidade, será durante a sua vida, membro nato do Conselho de
Administração”
NEGÓCIOS DA FAMÍLIA
De
igual influência familiar e política se serviu para salvar o projeto do palácio
de cristal no Porto de que foi um dos fundadores e principal dinamizador.
Em
Julho 1861 Alfredo Allen, Francisco de Oliveira Chamiço e Francisco Pinto Bessa
promoveram a fundação da Sociedade do Palácio Agrícola, Industrial e Artístico,
depois denominada do Palácio de Cristal Portuense S.A.R.L., com o objetivo de
construir um palácio destinado a exposições agrícolas, industriais e
artísticas.
De
início parecia que tudo se encaminhava bem mas, contra o esperado, a recusa da
colónia portuguesa no Brasil em participar no capital da sociedade, trouxe
dificuldades que pareciam inultrapassáveis, até que Francisco de Oliveira
Chamiço, sendo deputado e sendo ministro o seu familiar Mendes Leal, em Julho
de 1862, conseguiu um lei que isentava a sociedade de impostos e concedia
importação livre de direitos de todos os materiais destinados à construção do
Palácio.
Com
esta ajuda e com a de outros beneméritos que ofereceram os seus haveres
pessoais, como foi o caso do Dr. António Ferreira Braga, lá se concluiu o
Palácio de Cristal do Porto, que, segundo parece, nunca teve uma exploração sem
desequilíbrios financeiros e não permitiu reembolsar os seus credores,
falecendo o referido Dr. Braga, distinto professor da escola médico-cirúrgica,
em 1870, em penosa pobreza.
OUTROS FAMILIARES
Segundo
consta, o Francisco Chamiço tinha relações familiares com o General Joaquim
José Machado (1847-1925), bisavô do escritor Lobo Antunes. Este general,
maçónico, foi governador da Índia portuguesa e Governador-Geral de Moçambique,
onde fez obra reconhecida por muitos portugueses e até pela África do Sul que,
em sua memória deu o seu nome a uma localidade sul-africana (Machadorp). Talvez
o Francisco Chamiço tenha tido aqui alguma influência para puxar pelo familiar
no sentido do Ultramar.
A
ÉPOCA
Francisco
Chamiço nasceu antes da independência do Brasil, que se deu em 1822.
Depois
da independência do Brasil, muitos portugueses que enriqueceram com o comércio
brasileiro, ficaram sem apoio seguro do comércio colonial, embora a
independência daquele vasto território não trouxesse de imediato o corte
radical com os negócios que ali mantinham os portugueses.
Na
independência do Brasil não houve, como recentemente com Angola e Moçambique,
uma ponte aérea para repatriamento dos nossos compatriotas. Mas as vantagens do
regime colonial foram desaparecendo e os portugueses começaram a olhar para
África, como nova oportunidade para o seu comércio.
As
possessões portuguesas em África eram o arquipélago de Cabo Verde e o de S.
Tomé e Príncipe. Na Guiné, a presença portuguesa reduzia-se a Bissau (não
chegava a cem casas, a maioria palhotas), Cacheu e alguns entrepostos. Em
Angola, o controle português restringia-se, no litoral, às áreas entre a foz do
Rio Lifune e a boca do Cuanza e entre o Rio Quiteve e a cidade de Benguela e, a
norte do Rio Zaire, o entreposto de Cabinda. Para o interior, o limite não
estava determinado: avançava e recuava, conforme as circunstâncias, mas nunca
iam além de 300 quilómetros. No índico, a ilha de Moçambique, Sofala,
Quelimane, Inhambane, Lourenço Marques e mais algumas feitorias da costa,
tinham de haver-se com sultões e xeques aguerridos.
Os únicos portugueses que possuíam algum conhecimento
dos sertões angolanos, como eram chamadas as terras localizadas no interior,
eram os pombeiros. Estes homens eram, em grande parte das vezes, degredados que eram
deixados pelos navios portugueses nas terras africanas. Estabeleciam-se no
local, faziam contatos com as populações locais e até casavam.
Este é o caso do pombeiro Silva Porto, que se
encontrava nos sertões angolanos há cerca de quarenta anos, quando na década de
oitenta começaram a ocorrer com frequência as expedições portuguesas.
Essa
realidade impôs-se a Francisco Chamiço, que era um homem de agarrar as
oportunidades que se lhe ofereciam.
A
firma do Pai tinha relações com Inglaterra e o Francisco Chamiço tinha
consciência de que para manter uma atividade próspera se tornava indispensável
a exportação.
Em
1853, com 33 anos, foi dos fundadores da Companhia de Seguros Garantia,
praticando seguros marítimos e terrestres e que rapidamente se expandiu pelo
estrangeiro: Brasil, Inglaterra, Espanha.
Antes
de se lançar na fundação e direção do Banco, havia feito nome nos vinhos do
Porto, fundando a firma, juntamente com o irmão Fortunato e Carlos Silva, F.
Chamiço Filho & Silva.
Também
foi proprietário de minas de estanho da Mostardeira (Alentejo) e de
Trás-os-Montes, que vieram a ser financiadas pelo BNU.
O
ULTRAMAR
Vê-se
que o Francisco Chamiço abraçou a fundação e gerência do Banco Nacional
Ultramarino com toda a convicção. Falhado o Brasil como saída fácil da nossa
produção, tínhamos de nos virar para África. Como ele dizia, “os consumidores existiam já na África: eram os indígenas e apenas se
tornava necessário estabelecer relações com o interior, abrindo vias de
comunicação”.
Adquirido
o direito de operar como banco em exclusividade nas colónias portuguesas, havia
que expandir e desenvolver esses territórios.
Perseguindo essa ideia, Francisco Chamiço foi dos fundadores e principais
promotores da Sociedade de Geografia de Lisboa com a finalidade, entre outras
de natureza cultural, da expansão ao máximo dos territórios portugueses em
África. Foi através da Sociedade de Geografia, fundada em 31 de Dezembro de
1875, que foram efetuadas as viagens dos grandes exploradores/ocupadores de
territórios africanos, como Joaquim José Machado, Paiva Couceiro, Serpa Pinto, Hemenegildo
Capelo e Roberto Ivens. A expedição destes, desde Angola até Moçambique, deram
origem ao mapa cor-de-rosa, que delimitava como portugueses os territórios
compreendidos entre Angola e Moçambique e que deu origem, já depois da morte de
Francisco Chamiço, ao ultimato Inglês de 1989. O africanista Paiva Couceiro,
com origem inglesa, perante o ultimato, renegou toda e qualquer ligação a
Inglaterra. Não sabemos o que teria feito o nosso Chamiço se ainda fosse vivo,
mas satisfeito não ficaria porque este mapa estava dentro de todas as
aspirações da sua vida.
GRANDEZAS
E FRAQUESAS DE FRANCISCO CHAMIÇO
Francisco
de Oliveira Chamiço é uma personalidade de referência dos século XIX português
e, na sua vida, assim foi considerado.
Em
1852, é nomeado pelo Ministro Rodrigo da Fonseca Magalhães, para a comissão de
inquérito da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro
Em
1876 a rainha D. Maria Pia, por ocasião das inundações de inverno, organizou
uma comissão para angariar donativos, da qual faziam parte as personalidades
mais importantes da sociedade portuguesa, como o cardeal patriarca, e que
incluiu o nosso Francisco de Oliveira Chamiço.
Fez
parte da Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses.
Preside
ao comité executivo da exposição colonial portuguesa na exposição universal de Antuérpia,
de 1885.
Está
na fundação da Sociedade de Arboricultura e Floricultura em Lourenço Marques em
1985, juntamente com os maçónicos J.M. de Mesquita Pimentel e general Joaquim
José Machado, sociedade que, entre 1885 e 1887 criou, em Lourenço marques, o
primeiro jardim botânico de toda a África.
Apoiou
o Mesquita Pimentel na introdução, em Moçambique, da vinha, das romãzeiras e
das figueiras.
Em
1865 publica juntamente com Henrique Sergant “Relatórios sobre Minas de Estanho
de Montesinhos”.
Pertence
à Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Em
todas as vidas humanas há lutas e problemas que temos de enfrentar e Francisco
Chamiço não fugiu a essa regra.
Na
vida da família Barbosa e Silva de Viana do Castelo, feita por Maria Emília
Sena de Vasconcelos, consta que o Francisco Chamiço visitava frequentemente a
família e convenceu os Barbosa e Silva a investir confiadamente importantes
somas no Banco Nacional Ultramarino e, “ao dar-se seguidamente o mais famoso
descalabro daquele banco foi como se ocorresse um terremoto em Viana”, causando
enorme prejuízo àquela família. Diz-se ainda nessa vida dos Barbosa e Silva,
que o Francisco Chamiço veio a ser “inculpado” no processo.
No
desenvolvimento da sua atividade nas colónias africanas, o BNU acabou por se
envolver diretamente em atividades comerciais de importação e exportação e de
exploração de atividades agrícolas, adquirindo várias propriedades agrícolas.
O
problema que teve de enfrentar para a exploração dessa propriedades, foi a velha
falta de mão de obra.
Segundo
consta, após a libertação, o antigo escravo, aceita qualquer trabalho menos
aquele que o faça ligar à antiga atividade escrava que era a agricultura.
Daí,
uma das dificuldades em arranjar mão de obra indígena para a agricultura…
O
Francisco Chamiço protesta contra a abolição da escravatura sem se ter indemnizado
os proprietários dos escravos e sem se ter legislado a tornar obrigatório o
trabalho indígena.
Em
1875 o BNU contrata diretamente da Libéria, 600 homens e mulheres para as suas
propriedades de S. Tomé e até ao final de 1876 tinha já “importado” da Libéria,
cerca de 3000 trabalhadores.
A
importação de mão de obra da Libéria foi a solução que o F. Chamiço encontrou
como ideal para evitar a caça aos navios de escravos que era feita pelos navios
de guerra ingleses sobretudo nas costas de Angola.
Aliás,
em 1877 o navio à vela “Ovarense” ao serviço do BNU, foi arrestado pelos
ingleses e confiscada toda a sua carga, sob pretexto de que fazia comércio de
escravos.
Em
1877 o jornal “O Progresso” de Lisboa refere que em Luanda se encontram 240
escravos comprados pelo BNU com destino a S. Tomé, estando mais 1000 escravos
em Novo Redondo, prontos para partir para a “Água Izé”, propriedade do BNU em
Timor.
CONCLUSÃO
Muito
mais se poderia dizer sobre a vida deste homem que parece que passou por uma
vida muito intensa no (não muito longo) período da sua vida.
Teve
de enfrentar crises do Banco, desde o princípio e que constam da história do
banco e, com elas, toda a espécie de adversidades que acionistas e
colaboradores lhe causaram.
Já
se viu que aproveitou as oportunidades que se lhe ofereceram na vida e que
também lutou por causas que não eram as mais corretas, como a defesa da
escravatura ou do trabalho forçado dos africanos.
Mas,
quem não tiver defeitos, que atire a primeira pedra…
O
BNU foi seguindo o seu caminho, fez obra em terras portuguesas, com homens como
todos nós.