Eram tempos do banco tradicional, como diria o meu amigo Lobão, em que se privilegiava o contacto com o público. Quem estava ao balcão a fazer as operações de venda de moeda estrangeira era o Sr. Novais. Era um homem, como é que hei-de dizer... um bocado rabugento. Tive muita pena dele quando me contou que tinha vendido um pinhal que tinha na zona saloia, por 30 contos e que perdeu o dinheiro não sabia como. Pensava que ao sentar-se no seu Morris Mini tinha deixado cair as notas do bolso porque quando chegou a casa já não tinha o dinheiro. Eu saí dos câmbios em 1977 e ele reformou-se passado pouco tempo e sei que não gozou muito tempo a reforma, morrendo de cancro.
Não saber porquê e viver
Criar um Deus, luz dalguma esperança
duma qualquer vida onde o morrer
conduz a um mundo de bem-aventurança
Tenho passaporte com operações de venda de francos franceses, feita pelo sr. Novais:


A venda era registada no passaporte para controle e não podia ser vendido mais do que vinte contos por cada saida.
Claro que os contrabandistas arranjaram forma de fintar a lei. Os da minha terra pediam às pessoas os passaportes caducados. Não percebia para que lhes servia esse passaporte até que me explicaram que aproveitavam as folhas do passaporte caducado para substituir as do seu passaporte e assim podiam ir num só dia levantar no banco vários 20 contos em moeda estrangeira, que depois vendiam no mercado negro ganhando bom dinheiro.
Mas, como dizia a minha Mãe, o que pensa o guarda pensa o contrabandista e vice versa, e os passaportes começaram a trazer uma folha no final, onde eram anotados todos os movimentos de compra de divisa. Assim já era mais dificil o esquema de substituição de folha. Mas o contrabando de divisas só acabou verdadeiramente quando acabou a proibição ou limitação de importação ou exportação de moeda estrangeira.