terça-feira, 9 de março de 2010

FRANCISCO STROMP - Empregado do Banco Nacional Ultramarino


Nasceu em 21 de Maio de 1892 e morreu em 1 de Julho de 1930.
Em 1908, Francisco Stromp, então com dezasseis anos, estreou-se na equipa principal do Sporting, equipa essa a que pertenceu até à época de 1923/24, actuando como médio direito e a avançado centro. Jogador de magníficos recursos, foi o primeiro grande capitão e treinador de futebol do Sporting Clube de Portugal

O Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906, conquistou o primeiro título de Campeão de Lisboa em 1915 e em 1923, no mês de Maio, festejou o título pela quarta vez, com Francisco Stromp que na altura era o capitão-geral do futebol.

Diziam os companheiros que ele era a alma da equipa, apelava ao sportinguismo de todos, e fazia-o de tal forma que conseguia sempre unir o grupo.



Entrou no Banco Ultramarino, onde segundo consta, subiu rapidamente na carreira e ali se manteve até à sua morte.
Foi também um dos grandes dinamizadores do Grupo Desportivo do BNU.
O seu pai era um médico famoso e detectou-lhe a doença da sífilis que na altura não tinha cura. No dia 1 de Julho de 1930, com trinta e oito anos, no dia em que o Sporting fazia vinte e quatro anos, levantou-se cedo, mas em vez de ir para o Banco Ultramarino, como sempre ia, tomou o caminho da Estação de Comboios de Sete-Rios e lançou-se contra o comboio em andamento.
É perpetuamente o sócio nº 3 do Sporting, por ser o número de sócio que tinha quando faleceu.

RUA de S. JULIÃO 111

A entrada dos empregados para a sede do Banco era pelo nº 111 da Rua de S. Julião. Pelo menos desde que eu entrei no Banco.- Maio 1974 -.


Recordo-me que no final dos anos 70, havia no passeio e encostada às paredes junto à porta e tapando as janelas que estão entre a porta e a Rua Augusta, uma banca de jornais e revistas. Não sei se os responsáveis do Banco deixavam ou se o PREC não admitia oposição do Banco a essa banca.

A entrada era às 9 e a saída era às 6 da tarde.
Eu descobri que uma colega, que me tinham apresentado uns dias antes, andava a estudar e tinha dispensa para sair às cinco da tarde. Eu, solteiro mas não militante, saía às 5 menos 5 da tarde, a tomar um café, e ficava ali a ler os títulos dos jornais.
E então... claro, lá me encontrava.
- Oh! por aqui?
- É... é a minha hora do cafezinho... (mentira que eu, já nessa altura, não bebia café).
Ao terceiro ou quarto "café" em frente dos jornais, combinamos encontrar-nos para jantar. A partir dali, não precisei mais do café das cinco.
Não é que eu gostava mesmo daquela miúda?!
Ainda hoje não sei porque é que não deu certo. Talvez por eu gostar mesmo dela e não ter conseguido mostrar-lho.
Só sei que um dia deixou de me atender o telefone e eu vi desmoronar-se um projecto de vida.
Vidas da Baixa pombalina... Recordações da saída de S. Julião...

Um colega do contencioso, contou-me que andava a tratar do divórcio duma colega, que tinha deixado de gostar do marido. Acontece ao mais pintado...
O marido continuou a lutar por ela e veio a saber que ela andava a sair com outro empregado do BNU.
Então, um dia, o marido traído, mas compreensivo e lutador, esperou o arranjinho da mulher à saída do 111 de S. Julião.
Apresentou-se e disse-lhe que sabia tudo e que lhe dava até ao Natal para deixar de andar com a sua mulher... (parece que ainda faltavam 3 meses para o Natal, de forma que não se pode chamar ao marido um intolerante insuportável).

Entrando pelo 111, tínhamos, logo em frente, um elevador que ia até ao 4º andar.
Conta-se que o empregado chamado Engenheiro (que faleceu muito novo, de acidente automóvel), um dia, estando nesse elevador com outros colegas, entrou o D. Luis Pereira Coutinho, governador do Banco, e o elevador acendeu a luz vermelha. O Engenheiro disse ao senhor que tinha que sair, porque, se não, o elevador não andava.
- O senhor sabe com quem está a falar?
- Não não sei, mas como foi o último a entrar, tem que ser o senhor a sair.
- Olhe que eu sou o D. Luis.
- É o D. Luis I ou o D. Luis II?
Também se conta que o Engenheiro, uma vez estava à porta do 111 e um director veio dizer-lhe que já passava das duas da tarde e que fizesse o favor de entrar.
O engenheiro terá dito que não sabia do que o senhor estava a falar porque ele não era trabalhador do BNU. O director pediu-lhe desculpa e o engenheiro continuou na sua descontração.
Conheci o Engenheiro e era realmente um monumento à descontração e boa disposição. Que a terra lhe seja leve!


Se eu agora fosse o Fernando Pessoa, que também andou por estas ruas no dia a dia da sua vida, fazia uma poesia ao 111 de S. Julião.
Tinha que referir os desgostos e as ilusões que por ali entraram e saíram, as correrias para chegar a tempo de apanhar o livro de ponto, as saídas apressadas para apanhar o combóio do Cais do Sodré e chegar a tempo de apanhar o filho na escola.
Mas também podia descrever, com ditos belos ou épicos, as escapadelas de amantes fogosos ou as desilusões de paixões não correspondidas.
E teria lugar a celebração do estudo, do trabalho árduo, da luta pela progressão individual e colectiva, que fizeram do BNU um grande banco que talvez tenha acabado pelos desmandos que vários governos, após a revolução de Abril, praticaram, aproveitando-se dos seus activos para tapar políticas incompetentes que ainda agora todos estamos a pagar.

domingo, 7 de março de 2010

OLHA, OLHA!

A EDUARDA e o AZEVEDO!



A gozar as suas reformas douradas na sua bela vivenda em terras de Mafra! Vieram explicar o acidente!
Olá Azevedo!
Tens que colocar na tua agenda, onde apontas as datas dos aniversários de todos os amigos, também esta data em que tu e a Eduarda apareceram na TV.
Se quizeres rever a tua aparição clica AQUI
Das tuas qualidades de amigo que nunca se esquece dos aniversários já nós temos conhecimento. Lembra-me duma vez que eu ia a entrar para o BNU, na 5 de Outubro e que tu me perguntaste quem era a Zulmira que fazia anos nesse dia.
Quando entrei no 12º andar, dei logo de caras com a Zulmira que ia a passar no corredor. Fiz um figurão dando-lhe os parabéns! Ainda hoje, se calhar, a Zulmira não sabe como é que eu sabia que ela fazia anos naquele dia!
Doutra vez ia a entrar e tu perguntaste-me se já tinha dado os parabéns ao meu chefe Alexandre Dias. Cheguei lá acima e voltei a fazer um figurão. Acho que o Alexandre Dias até me convidou para almoçar, pois não esperava que eu soubesse.
Conta lá coisas tuas e da Eduarda e das vossas reformas douradas! O vosso aspecto é excelente!!!

sexta-feira, 5 de março de 2010

FRANCISCO FRANÇA


Adivinhem quem é…
Precisamente!
Francisco Manuel Monteiro França. Reformou-se há vinte e sete anos. Agora com 81 anos, está com boa saúde e com tudo a funcionar na perfeição. Lembra-se de tudo e continua a discorrer e raciocinar melhor do que muitos mais jovens. Vive na sua casa da Aroeira, mete-se no comboio e vem até Lisboa quando lhe apetece ou quando precisa. Recebe a visita dos filhos (3) e dos netos (2) e come e bebe como quando era chefe nas Letras.
(clicar na seta para ver o vídeo)

Continua a encontrar-se com o Lindinho, o Borrega e outros que estiveram com ele nas Letras. Ao Borrega, cujo nome completo é Sousa da Costa Borrega, natural de Quadrazais, concelho de Sabugal, o Sr. França chamava-lhe Carlinhos, "porque não tinha outro nome próprio". Ele aceitava bem.
O Borrega era uma das testemunhas "oficiais" do Banco. Quando eu fui para o contencioso, estava em curso uma acção que passou para mim. Referia-se a uma letra cujo sacador não me lembro quem era e cujo aceitante era um tal Filipe Vacondeus. Na altura, as petições e requerimentos para o tribunal eram feitos na máquina de escrever, onde, de uma só vez, se faziam, com o papel químico, todas as cópias a entrar no tribunal e mais uma que ficava no Banco. O papel químico utilizado ia desgastando o seu poder de cópia e às vezes a cópia que ficava para o Banco era de dificil leitura. Mas, enfim, com a visão da juventude e com um pouco de interesse do trabalhador, lá se ía vendo. O tal Filipe Vacondeus não se conseguiu citar para a acção e tivémos que fazer o julgamento em que o Banco teria de provar que tinha emprestado aquele dinheiro e que nenhum dos intervenientes, nomeadamente aquele Filipe, que as testemunhas conheciam, não tinham pago a letra. À hora, lá estavam as testemunhas "oficiais" das letras da sede. Entretanto o Juiz, antes de começar a audiência, perguntou-me se este Filipe, não seria FILIPA. É que o sacador estava ligado à restauração e a Filipa Vacondeus era muito conhecida da televisão pelos programas de culinária. Pela minha cópia, não se distinguia se era Filipe ou Filipa. Saí cá fora a perguntar às testemunhas. Ninguém sabia. Pedi então ao Juiz para adiar o julgamento até eu poder esclarecer o assunto, pois vi logo que o engano era evidente e que não se tinha conseguido citar o Filipe, porque ele não existia. Enfim, coisas que acontecem a quem, como o banco, tinha de arriscar, na atribuição do crédito.
Nos corredores do Palácio da Justiça de Lisboa

Voltamos ao Sr. França. Contou que, antes do 25 de Abril, houve na sede um movimento de protesto que se traduzia na não assinatura do livro de ponto. Então o director António Fézas Vital (chamava-se António por ser afilhado de batismo do Salazar) chamou ao gabinete alguns responsáveis, incluindo o Sr. França, e disse-lhes que se, ao outro dia, o Ramos ("era um pequenino, alentejano"), o Acácio, a Isilda ("uma moça muito bonita que depois foi secretária da administração") (Olá Isilda, continua bonita?), o Racha (que depois saiu do Banco para se dedicar por inteiro ao PCP) e o Vieira, não assinassem o ponto, eram expulsos do Banco. O sr. França avisou um deles e no outro dia todos assinaram.
Depois do 25 de Abril, o Sr. França ainda teve um desgosto porque chamou a atenção a um responsável pela atribuição do crédito, dizendo-lhe que estavam a retardar o crédito a um cliente por ele ser do CDS. Quem o defendeu foi o Sr. Agostinho dos Santos e os outros acusadores, perante o Sr. Agostinho dos Santos, calaram-se.
O meu saudoso amigo, José Carlos Martins, homem bom, amigo do amigo, trabalhador, natural de Vale de Espinho, concelho do sabugal, trabalhou com o sr. França, nas Letras e depois foi gerente da Baixa da Banheira. Faleceu há poucos anos, muito novo, de cancro nos intestinos. Era um grande amigo do Sr. França, a quem chamava o Xico Fininho (agora o sr. França está um pouco mais gordo) e o Sr. França chamava-lhe o Zé Grande. Parece-me que ambas as alcunhas estavam bem aplicadas.
Bons tempos….

O Sr. França, natural de Castelo Branco, passou 36 anos e meio no BNU. Entrou em Vila Franca, passou por Sintra, Sertã, Rossio, Praça de Londres e finalmente “Letras” na sede da Rua Augusta.
Recorda-se de ter ido uma vez numa comissão a Ponta Delgada. Chegou lá e apresentou-se:
- Olhe, nós vimos de Portugal…
- Mas isto aqui também é Portugal, responde de imediato o colega de Ponta Delgada.
(clicar na seta para ver o vídeo)
Razão tinha o meu primo da Madeira que dizia que o sotaque dos ilhéus se devia ao facto de terem estado muitos anos completamente esquecidos do continente…

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dr. HERLANDER MACHADO



Quando eu entrei no BNU, Maio de 1974, fui recebido na Rua Augusta, 63, pelo director de pessoal, Dr. Herlander Machado.
Cinco anos mais tarde, estava eu a trabalhar no Secretariado Operacional, foi lá colocado o Dr.Herlander. Tinha passado esses cinco anos a lutar no tribunal para ser reintegrado no BNU, donde tinha sido saneado no final de 1974. O seu cabelo, nesses cinco anos de luta, tinha ficado completamente branco.
Testemunhei o recebimento, abaixo de cão, que alguns responsáveis lhe proporcionaram. Passado pouco tempo, o presidente da administração, Dr. Oliveira Marques, criou o cargo de Secretário Geral do Banco Nacional Ultramarino e nomeou o Dr. Herlander como Director - Secretário Geral, ficando integrado nessa direcção o Secretariado Operacional. O Dr. Herlander mostrou a sua categoria não manifestando qualquer ressentimento e ajudando os que o tinham hostilizado.
Morreu em 8 de Junho de 1992, de um linfoma. Tinha feito 65 anos 4 dias antes e tinha-se reformado do Banco dois meses antes.
Pelos anos que com ele privei, posso dizer que era um homem extraordinário, sempre pronto a ajudar, sempre com uma palavra agradável, nunca se julgando superior aos seus subordinados, com uma cultura muito acima da média. Tem livros publicados de poesia, história, romance e etnografia. Ele dizia que era do Coentral. "Eu nasci em Lisboa mas como Lisboa é terra de ninguém, digo que sou da terra da minha mãe". Nunca esqueci esa frase que o dr. Herlander me disse.
No Coentral, onde fundou o rancho folclórico, continua a ser venerado.
Meteme Padre Eterno en tu pecho
misterioso hogar
dormiré allí pues vengo deshecho
del duro bregar.

PRÉDIO DA RUA AGUSTA 63.

O Departamento de Pessal do Banco passou, já depois do saneamento do dr. Herlander, para o edifício Castil, na Rua Castilho. O Prédio da Rua Augusta 63 foi vendio pela presidente da Administração, Drª Manuela Morgado. Diziam que tinha feito um mau negócio porque uns dias depois do BNU fazer a venda, os compradores venderam-no aos espanhóis pelo dobro do preço.
EDÍFIO CASTIL

terça-feira, 2 de março de 2010

José Porfírio



Lembram-se?
Foi um dos "putos" do BNU. Passou pelas letras (olá, Sr, França!), pela Av. da Liberdade (Olá, Branco) e por fim pelo Hotel Altis, onde foi caixa.
Continua a cantar o fado e nunca falta aos almoços mensais dos putos.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dr. José Augusto de Sousa


Quando entrei para o Contencioso, no edifício chamado "Caracol", na Rua do comércio, o dr. Sousa era dos advogados mais antigos, juntamente com o dr. Lino Paiva, o Dr. Aresta Branco, o dr. Carlos Olavo, Drª Lemos Viana, e outros. Era director o dr. Belo de Morais, que tinha substituido o dr. Vaz Monteiro, que havia transitado do contencioso para a administração.
O dr. Sousa era contra os divórcios. Nunca tratava de nenhum divórcio que lhe viessem pedir para tratar. Há quantos anos estão casados? - há três anos. - Então estão na crise dos três anos, que passa em dois meses.
Era sempre a crise que passava em dois meses. Era adepto de reconciliação e de fechar os olhos para alguma falta, mesmo que fosse infidelidade.
Ele próprio era um romântico.
Gostava de recitar às senhoras a seguinte poesia que ouviu a um amigo meu no Algarve:
Ando a lembrar-me de ti
do teu nome todo o dia.
Foi por isso que escrevi
em toda a parte escrevia,
nas negras pedras do chão
nos muros arruinados,
o teu nome em letras belas,
tão belas como não há.
Falta-me escrever no céu,
e no Sol... e nas estrelas:
meus braços não chegam lá.

Contava uma história de um cliente, que eu penso que tinha acontecido com ele, mas enfim. Então o seu cliente andaria a dar assistência a uma senhora que tinha um namorado casado que passava todos os fins de semana fora de Lisboa, com a família. Este namorado casado, era ciumento e nos fins de semana ia telefonando para controlar a namorada, mas, é claro, os telefonemas serviam também para a namorada controlar o ciumento, porque ela ia sabendo onde ele estava.
Um dia o namorado regressou de fim de semana, sem avisar e quando meteu a chave à porta, estava trancada por dentro. Tocou à campaínha:
-O que é que se passa? Enquanto responde e não responde, o cliente do Sousa, esconde-se entre um armário e a parede do quarto. Só que, com a pressa e porque nem tudo lembra e o criminoso deixa sempre uma pista, o entalado deixou à entrada do quarto a sua pasta, que foi o que logo viu o namorado quando entrou. Foi entrando, foi entrando até que deu, claro, com o entalado entre o armário e a parede, cada vez mais encolhido.
- Ó senhor, saia daí, que eu não lhe faço mal.
O entalado lá se convenceu a sair e começou a chorar e a jurar que não tinha feito nada e que só tinha estado ali a falar um pouco, porque estava muito em baixo e não sei quê. E lá foi agarrando a pasta e saindo e descendo a escada e fugindo pela rua fora.
Eu dizia-lhe ao Sousa que ele qualquer dia lhe acontecia como ao entalado e que podia sair mal a coisa.
Actualmente, reside no Norte e eu já uns tempos que não o vejo.